23 de ago de 2010

Em que pé anda a cultura ao sul do Mampituba!


RIO GRANDE DO SUL / ARTES

O Rio Grande do Sul possui uma estrutura de ensino formal em artes visuais bastante sedimentada, com universidades espalhadas em todas as coordenadas o estado e cursos de mestrado e doutorado em Porto Alegre. Existem vários pólos culturais, onde se criam estratégias relativamente autônomas dos recursos da capital. Porém, percebe-se, principalmente nos últimos anos, um afastamento dramático do poder público dos instrumentos culturais o estado, que investe cada vez menos recursos na área. Na atual gestão do governo estadual chegou a se cogitar a extinção da secretaria da cultura, ação felizmente impedida pela mobilização da classe e da imprensa local.

Porto Alegre é um pólo importante da produção em arte contemporânea no Brasil, com várias oportunidades de formação e fruição. A Bienal do Mercosul vem se firmando como evento relevante no calendário artístico do país à medida que extrapola os limites geográficos do seu nome, e o Instituto de Artes da UFRGS oferece mestrado e doutorado em artes visuais. Além disso, o Torreão, espaço mantido pelos artistas Elida Tessler e Jailton Moreira há mais de 15 anos, oferece cursos práticos e teóricos e uma programação constante de intervenções de artistas nacionais e internacionais. Também se destaca a atuação ateliê coletivo e da galeria Subterrânea, espaço mantido por sete jovens artistas, que promove, desde 2006, exposições, cursos e eventos em arte contemporânea. Há ainda as atividades desenvolvidas pela Fundação Iberê Camargo (FIC), com seu recém-inaugurado museu e um programa de bolsas de residência artística.
No entanto, os espaços públicos encontram-se perigosamente sucateados. As galerias municipais – galeria Iberê Camargo, galeria do Departamento Municipal de Água e Esgoto (Demae), Paço Municipal e Usina do Gasômetro – as instituições estaduais – Casa de Cultura Mario Quintana (CCMQ), Museu de Artes do Rio Grande do Sul Aldo Malagoli (Margs), Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MAC/RS) e o Instituto Estadual de Artes Visuais (Ieav) – estão, com raras exceções, em péssimas condições físicas e/ou administrativas. O estado parece contentar-se em apoiar as iniciativas culturais privadas, como a Bienal e a FIC, deixando de lado os instrumentos culturais públicos. Impressiona também a ausência de um circuito comercial minimamente estruturado: não há nenhuma galeria de arte com perfil definido.
Outros locais que apresentam programação interessante em arte contemporânea são a galeria da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), a galeria Espaço Zero, da Fundação Vera Chaves Barcellos, a Fundação Cultural e Assistencial Ecarta, o Goethe-Institut e o Museu do Trabalho. Com exceção do Goethe-Institut, que é ocupado por meio de edital, as demais instituições são todas ocupadas por meio de convite. O Santander Cultural, que iniciou suas atividades com programação relevante, atualmente apresenta grandes mostras de apelo popular.
Entrei em contato com 42 artistas em Porto Alegre, dos quais Gabriel Netto foi selecionado pelo Rumos. A produção local é, no geral, bastante qualificada e articulada. Existem muitos artistas que estabelecem conexões com outras cidades do Brasil, como Florianópolis, São Paulo, Rio de Janeiro e Recife por meio de programas desses locais, criando assim, circuitos alternativos de inserção dessa produção.

[Trilhas do Desejo: a arte visual brasileira. São Paulo: Editora Senac São Paulo e Itaú Cultural, 2009. Relatório: Região Sul, por Gabriela Motta. Rio Grande Sul, pág: 169. Porto Alegre, págs: 171/172.]

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Yeda Rorato Crusius reduziu as questões relativas a cultura ao sul do Mampituba, ao mero aspecto varzeano, bem ao seu gosto e ao de Mônica Leal. Ou a de cavalgaduras!

Agora vem o Fogacinha e sua lógica "tranversa" e rastejante querendo transformar o Acampamento Farroupilha em "museu vivo"? Gente! Ninguém merece isso.

Juro que não fui eu quem secou a louça com o "Santo Sudário"!

Realmente, temos que varrer essa gentalha para o quinto dos infernos!

17 de ago de 2010

Caso Sirotsky em Florianópolis: caminho para a pizzaria...




RBS determina como deve ser tratado o quintal alheio! Já na sua prole, a conversa é diferente!




O processo do caso de estupro de uma adolescente de 13 anos, em Florianópolis, em maio passado, foi entregue à juíza Maria de Lourdes Simas Porto Vieira, da Vara da Infância e Juventude.

O crime teria ocorrido no apartamento de uma família de classe média-alta, da ex-mulher de Sérgio Sirotsky, diretor da RBS (Rede Brasil Sul de Comunicação).

O filho do casal e um amigo (filho de um delegado da Polícia Civil), ambos de 14 anos, são acusados do crime.

De acordo com promotora da Infância e Juventude, Valquíria Danielski, não foi pedida a internação provisória dos dois porque os passaportes estão apreendidos e não há risco de fuga.

A promotora, que entregou a denúncia do caso na última sexta-feira (6), destacou que “houve estupro de pessoa vulnerável, praticado mediante violência presumida, em decorrência do fato de a vítima ter menos de 14 anos de idade e de se encontrar, no momento da prática sexual, sem condições de resistência, em virtude da ingestão voluntária de grande quantidade de bebida alcoólica”.

O processo está sob regime de “segredo de justiça”.

Do portal R7.

Por que o Rio Grande do Sul é assim - IV


A construção da hegemonia castilhista.

Para entender a vanguarda positivista-castilhista militante do Partido Republicano Rio-grandense (PRR), mas sobretudo compreender aquilo que Nabuco (antes de Lênin) sintetizou como o “espírito revolucionário” de uma dada conjuntura ímpar, original e irrepetível, vamos ver o que Florestan Fernandes considera como elementos que não podem faltar no momento do salto revolucionário (e isto vale tanto para o processo burguês, que estamos
comentando, quanto para um processo pós-burguês, do qual estamos muito longe, pelo menos com o lulismo no poder e a autodesconstituição petista).

“Em primeiro lugar – anota Florestan –, é preciso que existam certas categorias de homens, capazes de atuar socialmente na mesma direção, com dada intensidade, e com relativa persistência. Em segundo, lugar, é preciso que essas categorias de homens disponham de um mínimo de consciência social, de capacidade de ação conjugada e solidária, e de inconformismo em face do status quo, para poderem lidar, coletivamente, com meios e fins como parte de
processos de reconstrução social. Estes impõem, desejem-no ou não os agentes humanos, um complicado amálgama entre interesses sociais imediatos (e por isso mais ou menos claros e impositivos), valores sociais latentes (e por isso imperativos, mas fluídos) e interesses remotos (e por isso essenciais, mas relativamente procrastináveis)” – conclui o sociólogo, na obra “A Revolução Burguesa no Brasil”.

Sem entrar no mérito do ideário positivista-comtiano, que sempre orientou – qual doutrina – Julio de Castilhos e seus companheiros, há que se concordar que a vontade política daquela vanguarda obedecia às exigências de todo o genuíno processo revolucionário que se preze.

O Rio Grande do Sul vivia a crise terminal do modelo escravagista agroexportador, crise de mão-de-obra escrava (os cafeicultores paulistas vinham inflacionando o preço unitário da força-escrava pelo menos desde a proibição do tráfico, meados do século 19), aumento da divisão social do trabalho, assalariamento progressivo, novos agentes econômicos mais dinâmicos
advindos das comunidades imigrantes (onde, por determinação de Pedro 2º , era proibido trabalho escravo), etc. Ora, se de um lado havia uma crise estrutural do sistema dominante, de outro, florescia uma sociedade baseada em novos valores sociais e culturais.

O PRR sentiu, então, a janela de tempo que se descortinava no horizonte histórico do Estado, percebeu politicamente a contradição insanável entre uma ruptura da homogeneidade da aristocracia agrária simultaneamente ao aparecimento de novos tipos de atores sociais e econômicos. O processo revolucionário, portanto, era irrenunciável, inadiável.

Se a conjuntura histórica por si só quase conspirava para o desfecho de síntese, havia ainda três grandes tarefas instrumentais a realizar: 1) fixar um marco jurídico-constitucional para a nova ordem, depois consubstanciado na Constituição autoritária de 1891; 2) uma imprensa partidária aberta à população, consubstanciado no combativo jornal republicano “A Federação” e
inúmeros outros pequenos órgãos regionais de grande influência política; 3) uma força militar que sustentasse a nova ordem, consubstanciada na Brigada Militar como força pública estatal e a arregimentação de militantes do PRR como corpos provisórios militarizados para intervenção nos conflitos comuns no período, pelo menos até 1924 (os intendentes municipais funcionavam como
chefes políticos e militares).

Adiante veremos cada uma destas estratégias políticas que garantiram a hegemonia da ordem castilhista por quase 40 anos no Rio Grande do Sul.

Foto: detalhe do monumento de simbologia positivista em homenagem a Julio de Castilhos, que
está defronte ao Palácio Piratini, sede do Poder Executivo do Estado do Rio Grande do Sul, em
Porto Alegre. Obra do conhecido escultor Décio Vilares (1851-1931).

Texto de Cristóvão Feil (http://www.diariogauche.blogspot.com/)

14 de ago de 2010

Porque o Rio Grande é assim, parte 3.


A revolução burguesa no Rio Grande do Sul


Investigar sobre a existência de uma revolução burguesa no limite meridional do Brasil implica em verificar dois fatores preponderantes: 1) a ação de atores das grandes transformações que estejam por trás da desagregação do regime escravocrata-senhorial; 2) a formação de uma sociedade de classes.

Como afirma Florestan Fernandes, no Brasil “a Revolução Burguesa não constitui um episódio histórico”, foi um desdobramento longo de pequenas e continuadas “rupturas com o imobilismo da ordem tradicionalista e a gradual chegada da modernização como processo social”.

Entretanto, como já vimos antes, no Rio Grande do Sul aconteceu o episódio histórico, onde preponderou o “espírito revolucionário” de que falava Joaquim Nabuco. Mas para que fosse possível esse momento histórico, que aqui se desdobrou preferencialmente de 1891 (com a Constituição castilhista) a 1895 (com a paz de Pelotas), houve o processo de uma longa e complexa base psicocultural, política e evidentemente econômica, já que o Estado sulino
apresentava singularidades em relação à tradicional produção da monocultura de exportação praticada no resto do País.

[Aqui um breve parêntese elucidativo, para quem não leu os dois sueltos anteriores desta pequena série: estamos investigando os motivos que levam a burguesia guasca a renunciar a sua própria revolução social, onde foi francamente vitoriosa, para apegar-se ao passado farroupilha que, embora heróico, foi uma sucessão de fracassos. Por que as fanfarras do Tradicionalismo organizado – e ideologizado – não evocam a vitória modernizante de 1893,preferindo lembrar as derrotas sucessivas de [835-1845?].

Aqui não tivemos um sistema abortado ou interrompido de plantation, como sugeriram equivocadamente os estudos do sociólogo Fernando Henrique Cardoso.

Tivemos sim uma pluralidade de agentes econômicos (a pecuária exportadora, a charqueada, a pequena agricultura e a artesania das colônias de imigrantes não-ibéricos), ao contrário de São Paulo que foi vítima da monocultura extensiva de exportação, inibidora da divisão social do trabalho e do mercantilismo interno – bases necessárias de uma formação social dinâmica,burguesa, moderna e racional (Weber).

A guerra civil começa em 2 de fevereiro de 1893, quando o uruguaio Gumercindo Saraiva invade o Rio Grande com 400 rebeldes armados, em sinal de protesto pela reeleição de Julio de Castilhos à presidencia do Estado, tendo ocorrido sua posse uma semana antes, em 25 de janeiro.

Saraiva, um colorado uruguaio, representava mais do que os fazendeiros maragatos, epresentava sociologicamente uma reação armada do macro sistema baseado no atifúndio e na pecuária de exportação.

Dava-se início ao embate sangrento entre o Rio Grande atávico e conservador e o Rio Grande modernizante e planificador. A guerra civil foi obra cruenta, então, das forças oligárquicas reacionárias à Constituição estadual castilhista de 14 de julho de 1891.

A Constituição castilhista de 1891 foi um marco político da hegemonia republicano-chimanga no Estado. Representa uma ordem legal exemplar, que se poderia classificar com um tipo ideal weberiano – segundo Luiz Roberto Targa.


Texto de Cristóvão Feil (http://www.diariogauche.blogspot.com/)