16 de jan de 2015

Civilização, fundamentalismo, laicidade, livre pensar e terrorismo de estado.


Teorias conspiratórias a parte, tudo o que envolve esse atentado é muito nebuloso como tem sido nebuloso tudo em que o ocidente está envolvido desde o 11 de setembro. Não são poucas as vozes que vem denunciando a possibilidade dele ter sido executado sob falsa bandeira.
Focar nesse momento a discussão na questão estado laico x religião ou na liberdade de expressão é uma armadilha para desviar a atenção daquilo que é o fundamental, ou seja, o reerguimento do fascismo e a utilização do terrorismo como política de estado. A luta no sentido amplo contra essa nova onda fascistizante e não uma discussão pontual sobre liberdade de expressão, credo ou costumes é, justamente, o que vai garantir a sobrevivência do estado republicano e da laicidade. Não que não se possa discutir essas questões mas elas, via de regra, ficam revestidas de um caráter emocional que acaba por desviar a atenção da questão maior que é justamente saber o por que as coisas chegaram ao ponto em que estão.
Alguém é suficientemente ingênuo ou estúpido para acreditar que qualquer tipo de liberdade poderá sobreviver no modelo de estado policial orwelliano que os eua querem impor ao mundo? Já tivemos provas mais do que suficientes sobre aquilo que nos espera se este país imperialista for bem sucedido no seu intento de dominação global. Todos já esqueceram o escândalo sobre a espionagem generalizada feita pelo NSA - National Security Agency – do qual até a nossa presidenta foi vítima?
Que tipo de liberdade terá um cidadão num regime como esse, com sua vida sendo escrutinada nos mínimos detalhes por um aparato de controle social de modelo totalitário, imposto por um governo que se auto proclama guardião dos valores democráticos e que sob o pretexto de que é preciso combater o terrorismo, viola os princípios mais elementares dessa “democracia” que ele diz representar e defender?
Na minha concepção daquilo que deveria ser a luta pelo estado laico e pela liberdade de expressão não me sinto nenhum pouco entusiasmado em carregar a bandeira do Charlie, até por que a campanha que aquela publicação vinha fazendo contra o islamismo em geral não poucas vezes deslizou para o humor rasteiro, para grosseria e para a provocação irresponsável. Muitos daqueles desenhos não teriam passado no meu critério. Podem chamar de censura, se quiserem. Mas a insistência em associar o islã como um todo a um fundamentalismo sectário e minoritário que usava essa religião como suporte ideológico e pretexto para o extremismo, fez com que o senso comum passasse a associar todo o islamismo ao terrorismo. O fato de alguém gritar Alá é grande enquanto dispara uma metralhadora não coloca todo o islã em cheque como vem sendo feito nessa onda de indignação acrítica pós atentado.
Quando o Charlie insistia em ridicularizar o profeta, a comoção no mundo islâmico era inevitável dada a carga emocional gerada por essa provocação. A impressão que tenho é que os cartunistas franceses não percebiam o jogo pesado no qual estavam se metendo e nem estavam considerando a seriedade das ameaças que recebiam. Para qualquer pessoa sensata capaz de avaliar as consequências que poderiam advir desse ato – como advieram e advirão – era o momento de parar e refletir se o direito a livre expressão justificava lançar mais combustível sobre um fogaréu que já está a bastante tempo fora de controle, beirando a conflagração mundial. Diante desse quadro, como ateu convicto e como observador atento da cena internacional, digo que nesse momento é secundário saber se nós ocidentais levianamente temos ou não o direito de ridicularizar um signo de outra religião em nome de uma liberdade sem limites.
“A simples ideia de que aqueles insultos não seriam insultos já é, ela mesma, preconceituosa e insultante, porque declara que uma cultura – a que santificou a liberdade de manifestação como direito absoluto – seria superior a todas as outras. Essa ideia liberal é indecente, obscena”.
O previsível aconteceu e a dura realidade se impôs na forma de uma violência irreversível. Várias pessoas estão mortas. E como é obvio, o maquiavelismo político aproveita-se da ocasião da pior forma possível. Sempre desconfiei que poderiam haver retaliações, que as ameaças não eram retóricas. Imaginava que alguém poderia sofrer um atentado para intimidar os demais cartunistas. Nunca considerei a possibilidade de uma chacina. Como nunca considerei os desdobramentos sinistros que o caso está tendo. Sempre pode ser pior do que se imagina e ao que tudo indica essa comoção está servido muito mais aos interesses externos ao islamismo do que a ele mesmo.
Então, quais foram os resultados práticos obtidos com esse humor supostamente irreverente e iconoclasta? Deu no que? Num pretexto para um atentado repetidamente anunciado e numa marcha em Paris que serviu de palco para todos os maiores canalhas e criminosos do planeta pontificarem como guardiães da civilização quando são justamente eles os fiadores da barbárie e da violência generalizada em que o mundo está sendo mergulhado. Ver o mega genocida Netanyahu bancando um Luter King é de foder. E ter de ver o líder palestino Abbas, constrangido a participar dessa marcha farsesca ao lado do algoz de seu povo sob pena de o vermos acusado - como mesmo assim o estão acusando!!! - de apoiador do terrorismo, é simplesmente escabroso. Foi para isso que os franceses morreram? Vamos embarcar nessa também???
Assim como vamos embarcar no modelo de “liberdade de expressão” onde nossa mídia completamente avessa a qualquer tipo de crítica aos seus interesses não se furta a convocar chargistas quando isso lhe convém? E ainda se dando ao luxo de estabelecer um modelito oficial de indignação contra os “pérfidos” muçulmanos, que se não for obedecido a risca implicará na censura da charge sem o menor pudor. Depois de termos passados pela censura da ditadura vamos nos acomodar a esse cerceamento canalha e a baboseiras estilo charge on line de lápis partidos sangrando, lápis X AK 47, bonequinhos genéricos de muçulmanos perfurando jornais a bala... que também sangram?
Se vcs ainda não notaram essa é a nova “liberdade de expressão” que está se configurando, onde podemos colocar estrelas no cu do profeta acreditando ingenuamente que com isso estamos lutando pelo estado laico quando na verdade estamos fazendo o jogo de um brutal modelo de dominação que tem como viga mestra a disseminação do preconceito, do ódio, da violência e que mantém o mundo num estado de tensão permanente usando isso como pretexto para perseguir, reprimir e matar. É nesse contexto que temos que colocar os fatos que levaram ao atentado no Charlie Hebdo.
Assim sendo, a pergunta que ninguém faz, por desinformação ou propositalmente, é a quem mais interessa nesse momento semear o caos no planeta? Que pais está hoje envolvido sob forma de intervenção militar direta ou indireta em todos os conflitos em andamento no mundo. Ou melhor, qual o país que de uma forma ou de outra não provocou todos esses conflitos? E sintomaticamente qual o pais que defende a doutrina do “caos controlado” como instrumento de dominação global? E, finalmente, qual pais seria o maior beneficiário desse atentado em Paris?
Pois vejamos: quem teria interesse no aumento da tenção internacional?
O Irã, sistematicamente perseguido pelos eua após ter se libertado do jugo do imperialismo com o triunfo da revolução islâmica?
O Hezbollah, partido armado libanês que expulsou os invasores israelenses do Líbano e que agora combate juntamente com o exército sírio os terroristas jihadistas infiltrados na Síria pelo ocidente?
A Síria, que está numa luta de vida e morte para não ter o mesmo destino da Líbia, qual seja, o de ser destroçada como estado nacional?
A Rússia, que tem apoiado a Síria na sua resistência a invasão terrorista orquestrada pelo ocidente e obstaculizado sistematicamente na ONU as tentativas dos EUA e países capangas de promover uma “guerra humanitária” na Síria?
Ou EUA, o enclave sionista de israel, arábia saudita, e os sabujos europeus como França, Alemanha e Inglaterra que financiam, treinam e armam descaradamente mercenários terroristas que sob a bandeira de uma suposta guerra santa lançam o Oriente Médio no maior caos da sua história? O que, não por acaso, vai ao encontro da intenção dos EUA de destruir a Síria, último obstáculo a ser removido pelo império para que ele possa “redesenhar” o mapa daquela região para melhor saquear o petróleo?
O que ninguém quer discutir nesse momento é um tema de importância fundamental e para o qual tenho chamado a atenção seguidamente, qual seja, o da diluição dos conceitos. Um tema que nos diz diretamente respeito já que como chargistas utilizamos seguidamente conceitos e signos para buscar o melhor entendimento daquilo que produzimos através da nossa linguagem gráfica.
Num mundo em que a direita está apropriando-se de conceitos e do modus operandi da esquerda como tem feito o inqualificável Gene Sharp, até o significado que a palavra revolução tinha a bem pouco tempo não é mais o mesmo. Tido como guru das “revoluções coloridas” ou das tais “primaveras” que andaram eclodindo pelo mundo árabe, Sharp, através de seu suspeitíssimo instituto de duas pessoas – ele e uma secretária – desenvolve “estudos” para promover “mudança não violenta de regimes” autoritários em todo o mundo. Isso em tese. Na prática, seus “estudos” combinados com a doutrina dos golpes de estado de amplo espectro (ou guerra de baixo impacto) são usados pelos eua - com a participação de figuras sinistras como o mega especulador George Soros - para desestabilizar governos que coincidentemente não alinham-se aos seus interesses, sendo ou não ditaduras.
Em 2013 e 2014 essa doutrina foi amplamente empregada na Venezuela para desestabilizar o governo chavista e no Brasil para desestabilizar o governo e depois para deslegitimar a vitória eleitoral de Dilma. Nesses dois países a massa foi arregimentada convicta de que estava participando de uma “revolução, porra!” e não de uma tentativa de golpe de estado. O mesmo roteiro desestabilizador foi utilizado pelos eua para derrubar violentamente o governo eleito da Ucrânia e colocar no seu lugar uma junta nazifascista.
Para quem se diz pacifista, vale a pena ler as gracinhas que Sharp diz sobre a Síria: “... seria muita ingenuidade acreditar que um regime como o de Assad não recorreria ao uso de medidas brutais para reprimir os dissidentes.” Quem seriam os dissidentes? Os terroristas do estado islâmico, cria dos eua? “E sem completar a ideia, sugere que talvez fosse prudente esperar por uma janela de oportunidade mais clara para mudar o regime.” Qual seria essa janela? Bombardeios maciços como os feitos contra a Líbia para destruir sua infra estrutura? “Como um pacifista, Sharp não aposta fichas numa hipotética – e cada vez mais improvável – intervenção militar da ONU. Para ele, ou os movimentos aprendem a romper a lógica da violência, ou não passarão de mais um movimento no pêndulo de intolerância que produz mudanças de cargos, mas não de paradigmas.” Isso também vale para o governo dos eua que usa o terrorismo de estado como instrumento para submeter o mundo a sua vontade?
Assim como o conceito de revolução ficou nebuloso, as contradições do mundo atual também diluíram as fronteiras de outros conceitos. O do estado laico, cavalo de batalha do momento, é um deles.
Para exemplificar tomo o exemplo do nosso próprio país. É visível e preocupante a avançada do pentecostalismo no Brasil com o aumento da sua representação no parlamento e a conseqüente pressão sobre o estado no que diz respeito a revogação de direitos que já estavam garantidos. Não bastasse isso, ainda temos o surgimento de um fenômeno que poderíamos chamar de ódio sectário, ocasionando a destruição de vários templos da religião afro, sem que o governo até o momento tenha tomado qualquer providência quanto a isso. Sempre é bom lembrar que nos cabos diplomáticos trocados entre a embaixada estadunidense no Brasil e seu embaixador, tornados públicos pelo Wikyleaks, Cliford Sobel defendia a ideia de que era conveniente estimular o ódio sectário em nosso país.
Por outro lado, se tomarmos o exemplo do Irã, onde o regime é teocrático e a despeito de todas as infâmias e provocações que o enclave sionista de israel tem lhe feito, este país garante a comunidade judaica local a manutenção de seus costumes a ponto de permitir sinagogas, cemitérios, escolas e até o funcionamento de açougues onde é feito o tradicional corte kosher. Segundo a propaganda ocidental o regime iraniano é intolerante e sectário. No entanto garante os direitos de uma minoria. No Brasil, que oficialmente é um estado laico, uma minoria sofre constrangimento violento que só tende a aumentar e o governo não consegue conter a escalada dessa violência. Estão quem somos nós para exigir em nome da laicidade e da livre expressão o direito de tripudiar sobre a cultura religiosa de outros povos se não conseguimos impor a laicidade do nosso estado frente a ofensiva pentecostal e nem sustentar a liberdade de credo garantida em nossa constituição?
Outro conceito que está sendo corroído é o de civilização. O mundo ocidental sempre reivindicou para si esse conceito com uma espécie de propriedade particular imaterial e permanentemente o evoca como um conjunto de valores morais e culturais superiores que podem ser impostos ou sobrepostos aos de qualquer outra cultura. Mesmo quando se sabe que o processo civilizatório como o conhecemos hoje é o somatório de valores e conhecimentos produzidos por inúmeras culturas ao longo da história e que geograficamente estavam ou estão fora dos limites daquilo que atualmente consideramos como mundo ocidental. Frequentemente o conceito de civilização também é evocado para justificar a prepotência do ocidente frente aos países considerados periféricos ou subdesenvolvidos. Ou quando um desse países ou grupo de indivíduos não pertencentes ao núcleos dos países “civilizados”se insurge de forma violenta ou não contra a dominação ocidental. É muito comum nesses momentos ouvir-se que “a civilização está sob ataque”. Não foi diferente no caso do atentado em Paris.
O ataque contra os cartunistas franceses teria sido perpetrado por terroristas fundamentalistas muçulmanos e atingiu em cheio dois conceitos basilares da cultura ocidental. O primeiro foi o da liberdade de expressão e o segundo o próprio conceito de civilização. Quando eu disse que o ataque “teria sido perpetrado” é porque tudo o que o envolve está muito mal explicado, começado pela visível desenvoltura dos três terroristas que na verdade são dois porque o terceiro nunca aparece, passando pela pessoas deitada na calçada que leva um tiro na cabeça sem o levar e sem sangrar, pois a bala atinge o solo de maneira bem visível a ponto de levantar poeira de fragmentos da lage, do esquecimento do passaporte no carro, da “eficiência” da polícia francesa em apontar o terceiro suspeito que estava em sala de aula no momento do atentado e da rapidez com que eliminou os outros dois (morto não fala não é?) e tantas outros episódios que não batem.
Mas aceitemos que o atentado tenha sido feito por terroristas “muçulmanos” o que mesmo assim não autoriza ninguém a identificar o islamismo com a violência sectária, pois segundo os franceses os responsáveis fariam parte da Al-qaeda. Como todos já devem saber, essa é uma organização terrorista criada pelos EUA e que agrupa várias facções de mercenários que usam de forma oportunista o islamismo como bandeira, com menor ou maior grau de radicalismo. Poucos desses grupos obedecem a uma hierarquia e disciplina militar. Disputam poder entre si ao ponto de se enfrentarem em combates, com os maiores grupos absorvendo os menores. Seus líderes na maioria são oportunistas e ladrões que na Síria frequentemente loteiam áreas de influência e na boa tradição mercenária guerreiam para quem paga mais. Com a ascensão do estado islâmico houve uma espécie de unificação desses grupos que receberam e continuam recebendo consistente ajuda em armas, treinamento e abastecimento dos eua, do enclave sionista israelense, da arábia saudita, dos emirados do golfo, da Turquia, Inglaterra, França e Alemanha. Com a ocupação de parte do território sírio, o estado islâmico suplementa a ajuda fornecida por seus aliados com dinheiro da venda do petróleo roubado da Síria e que é escoado para Europa “legalizado” com notas frias fornecidas nos portos israelenses.
Do outro lado dessa “coalizão de vontades” estão a Síria, único estado laico e multi étnico da região, invadido e sistematicamente atacado pelas hordas de terroristas jihadistas apoiados pelo ocidente;
A Rússia, aliada que tem impedido na ONU todas as tentativas dos EUA para legitimar “bombardeios humanitários” contra a Síria, além de dar apoio estratégico fundamental no desmantelamento das farsas montadas pelos estadunidenses contra o governo de Damasco, como foi a tentativa de impingir aos sírios a utilização de armas químicas contra civis;
O Irã, que além de apoiar politicamente e materialmente a Síria, também apóia o partido armado libanês Hezbollah de orientação xiita;
E o próprio Hezbollah, que luta ao lado do exército sírio contra os terroristas mercenários.
Aqui chegamos ao divisor de águas entre o que é mentira e o que é a verdade, sobre quem defende o que, sobre laicidade, liberdade de expressão e civilização. De um lado temos dois países e um partido armado defendendo um estado laico que está sob ataque implacável de terroristas mercenários que auto proclamam-se fundamentalistas islamitas. Desses dois países, um deles é uma teocracia xiita e o partido armado também é da mesma orientação religiosa. No outro lado, apoiando o ataque terrorista fundamentalista, estão vários estados ocidentais que se proclamam laicos e guardiães da civilização.
Diante desse paradoxo eu gostaria que meus colegas chargistas me dissessem com quem devo me solidarizar: se com os que estão de armas na mão – e isso para mim é um dado inegociável nessa discussão - pois trata-se de gente que põe sua vida em risco e suas convicções religiosas abaixo do valor maior que é defender o estado laico e o próprio processo civilizatório. Ou solidarizar-me com gente que ao que tudo indica rifou sua vida num jogo de interesses por não compreender exatamente o alcance daquilo em que estavam se metendo ao se disporem, de sangue doce, a fazer piadas grosseiras sobre questões menores em nome de uma suposta liberdade de expressão, enquanto o governo de seu pais descia ao nível da mais pura barbárie utilizando-se de terroristas mercenários como exército supra nacional para promover intervenções sanguinárias em nome dos interesses do capital globalizado?

Eugênio Neves, cartunista.